Setor acumula retração, e Anfavea prevê recuo de 6,2% para 2026 com juros altos e avanço das importações
O Brasil vive hoje um cenário curioso, para não dizer contraditório. Enquanto o agronegócio segue como um dos pilares da economia, com produção robusta e presença global consolidada, o setor de máquinas agrícolas enfrenta uma sequência preocupante de quedas.
Dados da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que o segmento acumula quatro anos consecutivos de retração nas vendas. Em 2025, foram comercializadas cerca de 49,8 mil unidades, uma queda de 3,6% em relação ao ano anterior. O número, isoladamente, pode não parecer alarmante, mas ganha peso quando inserido em uma tendência contínua de desaceleração.
A explicação para esse movimento não está na falta de produção agrícola. Pelo contrário: o campo continua ativo, produtivo e cada vez mais tecnológico. O problema está na conta que não fecha.
Nos últimos anos, produtores rurais vêm enfrentando aumento nos custos de produção, pressão nos preços das commodities e, principalmente, juros elevados. Nesse contexto, investir em novas máquinas deixou de ser prioridade. A lógica passou a ser outra: preservar caixa e adiar decisões de alto custo. Comprar uma colheitadeira ou renovar a frota de tratores, hoje, exige cautela redobrada.
“O crescimento da atividade agropecuária, mais volátil e incerto do que o de máquinas rodoviárias, ocorre em um contexto de juros elevados, o que afeta diretamente o setor de máquinas agrícolas”, afirmou Igor Calvet, ressaltando a necessidade de fortalecimento de instrumentos de financiamento, como o Plano Safra e linhas do BNDES.
Esse comportamento fica ainda mais evidente quando se observa o desempenho por tipo de equipamento. Máquinas que exigem maior investimento, como colheitadeiras e tratores de alta potência, registraram quedas mais acentuadas, de 22,1% nas vendas no ano passado.
Já os tratores menores tiveram desempenho melhor (queda de 2,1%), impulsionados principalmente pela agricultura familiar, que conta com linhas de crédito mais acessíveis. Ou seja, não é que o produtor deixou de investir completamente — ele apenas passou a investir menos e de forma mais seletiva.
Crescimento das importações
Enquanto isso, outro movimento ganha força e preocupa a indústria nacional: o avanço das importações. No ano passado, em relação a 2024, houve um crescimento de 17%. Máquinas vindas da China e da Índia estão conquistando espaço no mercado brasileiro com preços significativamente mais baixos; segunda a Anfavez, em alguns casos, mais de 20% inferiores aos produtos nacionais.
Diante disso, a decisão do produtor tende a ser pragmática. Se o equipamento atende às necessidades e custa menos, a escolha se torna quase automática.
O impacto desse fenômeno já aparece de forma clara na balança comercial. O Brasil registra déficit no setor de máquinas agrícolas pelo segundo ano consecutivo, um sinal de alerta importante. A Índia lidera o fornecimento de máquinas ao país, seguida pela China, que vem ampliando rapidamente sua participação.
Sem boas perspectivas
As perspectivas para 2026 não indicam uma reversão imediata desse quadro. A tendência é de continuidade da pressão sobre as vendas, avanço das importações e manutenção de um ambiente desafiador para fabricantes nacionais. A Anfavea prevê um recuo de 6,2% na venda de máquinas agrícolas no ano
Sem mudanças mais estruturais — especialmente na redução do custo do crédito e no fortalecimento de políticas de incentivo — o setor deve seguir enfrentando dificuldades.
No fim das contas, o que se vê não é uma crise de demanda, mas uma consequência direta do ambiente econômico. O produtor rural continua precisando de máquinas, mas está cada vez mais limitado na forma de adquiri-las.
Fonte: CNN
